segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Lírica

Jornal Folha de Londrina, domingo , 24 de outubro de 2010
Ao pegar o jornal uma pagina cai ao chão e eu leio os seguintes dizeres retirado de um texto belissimo de Celia Musilli  inspirado na crônica  "O amor acaba" de Paulo Mendes Campos.

O amor está sempre acabando, quando tivemos coragem ou fomos covardes para esclarecer, perdoar, fazer o jogo da verdade.

O amor está sempre acabando. Nos bares, nas casas, nas esquinas onde atiramos endereços no châo pisando como se fossem sonhos.
O amor está sempre acabando, no ônibus que chega, no trem que partiu, na briga premeditada, na luta pela sobrevivência, no parque de diversão, no alvo que acertamos, nos erros que cometemos no trânsito e nas avaliações de caráter, nas feridas abertas, nas cicatrizes que ostentamo, nas oficinas onde se constroem máquinas, nos hospitais onde se consertam corações.
O amor está sempre acabando, quando abraçamos as roupas no armário ou colocamos fotos na sala, vestidos sobre os tapetes, lingerie nos trincos, perfume atrás das orelhas, bato, e rímel escorridos no choro, lavagem da almae o quarto limpo, sem flores, sem vasos e sem despedidas.
O amor está sempre acabando. Quando o mimamos com versos, conversas, passeios imaginários. Ou o submetemos a uma suposta racionalidade sem devaneios, na expectativa da duração, pés no chão, filhos e planos cronometrados.
O amor está sempre acabando, quando cai a chuva e quando vem o sol, sob as estrelas, à luz da lua, à beira do abismo, no escuro do cinema, ao redor da cidae iluminada. O amor está sempre acabando, quando fazemos confidências ou guardamos segredos a sete chaves, quando nos expomos inteiros, quando nos preservamos, quando rimos, quando nos vingamos, quando damos as mãos, quando soltamos o corpo num oceano íntimo, onde deixamos fluxos e refluxos, máres de incertezas e a mais confiante das viagens.
O amor está sempre acabando, quando tivemos coragem ou quando fomos covardes para esclarecer, para perdoar, para fazer o jogo da verdade, para blefar nas cartas de despedida, para escamotear a grandeza e preferir a pequena dissolução sem gritos e sem revolta.
Oamor está sempre acabando, quando chamamos a proteção ou vamos de perto aberto, quando usamos escudos ou nos entregamos, quando nos despedimos soltando vagarosamente as mãos, no lugar do gesto que afagou, da carícia suprema, do último olhar quando fechamos a casa porque o amor acabou mas, em algum lugar do planeta, o amor está sempre começando.

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